Etinerário em Pasárgada

fevereiro 16, 2010 at 5:33 pm (Conto)

Raphael Lambach ©2010 Lambach’s writings

“Não quero saber do lirismo que não for libertação.”

Bandeira

O cortejo fúnebre passava lentamente pela pequenina avenida. O caixão era seguido por um mar de gente; uns que conheciam aquele homenzinho de óculos de arco e nariz adunco e outros que jamais haviam o visto ou mesmo lido um de seus poemas tão belos.

O Poeta vivera na espera da mais indesejada das gentes, que deveria ser trazida – logo na juventude – pela triste tuberculose. Queria ser músico, mas nunca o foi, entrementes, criou dentro de si um desejo indizível de viver, transcrito claramente em cada um de seus pungentes versos. Sua morte fora calma, lírica, assim como a queria. (Nem sofrera tanto).

Alguns homens que estava à margem da rua, retiravam de suas cabeças os chapéus como um gesto de respeito e veneração. O esquife vinha em um belo carro, todo luto, porém, repleto de coroas florais. Tudo muito singelo.

Ao chegar ao cemitério, a comoção apenas aumentava, lágrimas corriam dos olhos de todos. Ali estavam seus amigos, seus admiradores – anônimos ou não – e tantos outros que viam no Poeta a vida. Nunca tivera filhos, no entanto, deixou milhares de herdeiros, que fariam de seu espólio o mais singular legado deixado por um homem. O Poeta parecia tão belo dentro do esquife, um rosto sereno, de quem tirava apenas uma soneca.

O caixão foi baixado, flores foram atiradas. Lágrimas e suspiros.

Pela bela porta dourada o Poeta entrou em Pasárgada. Aquela era sua verdadeira terra. Seu semblante transmitia ternura, pureza e sonhos. Em vida, ele nunca parecera tão feliz. Havia em seus lábios um gigantesco sorriso. O Poeta então refletiu:

- Por que todos estavam chorando, se agora descobri o que é a verdadeira felicidade? Eles deveriam ver o que é Pasárgada, que lugar belo, formoso e cheio de vida.

Resolveu passear pela cidade por algumas horas, antes de ir conversar com um ilustre amigo seu: o Rei. Estava resoluto em almoçar com o soberano. O Poeta sabia que este era ocupadíssimo, todavia, sabia também que o monarca jamais negaria um pouco de seu tempo para um velho amigo.

Assim, foi andando até o Palácio e pelo percurso observou a tudo e a todos. Na Praça, parecia haver uma reunião, alguns homens olhavam para o céu e discutiam em voz baixa. O mais velho deles, usava longos cabelos brancos e barbas embranquecidas e proporcionais ao comprimento do cabelo. Esse homem dispunha de um astrolábio e uma luneta. O Poeta pôde ouvir quando o homem baixinho, que se encontrava ladeando o ancião – disse:

- Galileu, que céu fantástico. Daqui, a Beleza prevalece, é única soberana. Antes ficávamos maravilhados com coisas tão ínfimas, e que se perdíamos a vida por elas.

- Copérnico, não seja tolo. Tudo na Vida é coerente, na Morte, não é diferente. Pasárgada mostra a intensidade das formas, do que é frondoso e nos revela a abundância do Universo.

O Poeta ficou vislumbrando por mais alguns instantes e partiu. Seu caminho era longo até o Palácio, por isso, deveria andar rápido e não mais ouvir as conversas alheias. Continuou a caminhada. A Praça era tão extensa, mas ele se esquecera disso. Como poderia ter cometido um ato desses? Não fazia importância e nem diferença, ao contrário, ele teria apenas mais Beleza para contemplar. Mais adiante, próximos a bela macieira do centro do Jardim da Praça estava três cavaleiros a conversar e rir demasiadamente alto.

Um deles falou:

- Byron, li e reli seus poemas. Quantas vezes perdi-me por entre seus crânios e suas caveiras. Isso me divertia tanto.

- Wilde, meu dileto, seu senso de percepção é tão aguçado. Até hoje não entendo por que tantos tinham a mim como apóstolo da tristeza. Veja, a última vez que encontrei aquele amigo seu, o Sr. Gray, ele tinham em mãos um livro meu, dado a ele por você. Na outra, claro, havia uma bela donzela. O que me diz Machado?

- Não sei, não. Existe algo de mórbido sim, mas nem tanto. Ri algumas vezes também. E quanto ao Dorian, francamente, ele está em idade de casar-se.

O primeiro cerrou o cenho, não estava de acordo com a opinião do seu segundo amigo, entrementes, respeitava-lhe. Os três continuaram a conversar distraidamente, não perceberam a presença do Poeta ao lado.

O Poeta caminhava pensativo, sabia que a distância ainda era grande, porém ao passar frente a um campo, reparou que o campo não era belo tampou florido, além disso, estava envolto em altas cercas de arame-farpado. O campo era formado por pedras, de tamanhos variados, mas que pareciam muito duras. Algumas dessas pedras tinham o tamanho de três ou quatro homens.

Nesse campo estavam vários homens fardados, todos acorrentados uns aos outros, e em mãos, havia uma pequenina marreta – que deveria ter pertencido a uma criança, devido seu tamanho diminuto. Com essa marreta os homens fardados quebravam as imensas pedras. Era este um trabalho muito árduo, ainda mais que alguns caminhões traziam mais e mais pedras. Porém, algo chamou a atenção do Poeta, de modo particular e peculiar: entre os homens fardados havia um, em especial, que parecia ser muito altivo, dono de si mesmo. Seu trabalho era exercito com ódio e rancor, pois entre as marretas, ouviam-se palavras que pareciam muito feias. Esse homem não era muito grande, mas tinha um porte autoritário – mesmo na situação onde se encontrava -, deveria ter um oficial militar muito cruel em outros tempos, agora, esse pequeno homem, de fala estranha, barrigudinha protuberante e um bigode aparado dos lados – que deixava o bigode existir apenas sob o nariz, exatamente na dimensão da largura do nariz – trabalhava forçado, possivelmente pagando pelos erros que um dia cometeu.

“Ah, mas isso vai levar toda a eternidade” pensou o Poeta e continuou sua longa caminhada até o Palácio.

A longa jornada prosseguia. A cada metro, o Poeta lembrava-se que lá no outro mundo ele não era nem um pouco feliz, havia agruras demais naquela vida. Em Pasárgada eram diferentes as coisas, ele poderia correr feito louco e assim o fez. Saiu correndo pelas ruas, becos e avenidas da cidade, gritando por um filho:

- Filho, filho… Ninguém respondia.

O Poeta não se sentia incomodado, em Pasárgada, tudo era permitido.

Naquela terra, a única coisa que estava proibida era tristeza. O Poeta punha em seu rosto e dava continuava a dar seus passos loucos pela rua.

Após ter gritado pela cidade afora, decide visitar um velho amigo. Ao chegar na casa desse tal, surpreende-se ao ver o velho fazendo ginástica em um ritmo frenético e jovial.

- Téuteras, o que você faz agora seu velho ladino? Ginástica? Quem diria! Pegue uma cadeira e vá sentar-se, isso não é para sua idade. Diz o Poeta aos risos.

Téuteras não pára, mas diz ao amigo:

- Velho é você. Venha – me acompanhe. Vamos colocar esse seu corpo mole em forma.

O Poeta olha timidamente, está inseguro. Téuteras olha serenamente para ele, um olhar de convite. Finalmente, o Poeta aceita. Ficam algumas horas entre polichinelos, flexões, abdominais e outros exercícios que o Poeta desconhecia o nome e os movimentos. Há nos olhos do Poeta um alumbramento com seu vigor, vitalidade e saúde. Ele não se cansara, nunca se sentira tão bem.

- Ah, meu velho amigo Téuteras, como Pasárgada é bela, não bastasse sua paisagem, aqui nossa existência é uma aventura. Aqui a vida é outra coisa. Diz o Poeta com um sorriso gigantesco em seu semblante.

O amigo não perde tempo:

- Agora, vamos andar de bicicleta. Que tal?

- Claro.

Monta cada qual em sua bicicleta e saem a passear por Pasárgada, livremente; esse passeio dura horas e horas.

Como se tudo aquilo fosse pouco, Téuteras e seu amigo vão banhar-se em mar. A água gostosa vem bater às costas do Poeta que se regozija de prazer. Ambos não estão cansados, ao contrário, estão cada vez mais dispostos. Téuteras diz ao Poeta:

- Que tal passar a noite lá em casa até que você arranje uma para si?

- Não sei. Visitarei Rosa hoje, deixarei para ver o Rei amanhã, talvez ela me faça o mesmo convite e, como sabe, dela não posso recusar tal convite. Ela cuidou…

- Sim, sei. Ela cuidou de ti. Eu entendo, seu velho ladino.

Ouvem-se inúmeras gargalhadas. O Poeta despede-se do amigo e ruma à casa de Rosa.

Quando o velho chega à casa de Rosa – já tão envelhecida quanto ele, cabelos grisalhos e a face retorcida por rugas, mas que não tiram de seus olhos o brilho especial – ela parece não perceber a idade do Poeta e o acolhe entre seus braços com um abraço aconchegante, costumeiro de quando era apenas um garoto.

- Rosa, é uma dádiva encontrar-lhe. Você parece tão bem, tão viva. Afirma o Poeta jocosamente.

- Meu menino, meu menino, vejo como você cresceu, mas para mim, ainda é aquele garotinho que eu punha em meu colo e contava histórias. Lembra-se?

Vê no semblante do Poeta a nostalgia, sem tristeza e sem mágoa, porém , com a alegria de quem um dia foi feliz.

- Impossível esquecer-me, Rosa. Adoraria que me contasse algumas histórias.

- Não, não. Aqui em Pasárgada, apenas a Mãe-d’água pode contar histórias. Você tem que pedir a ela.

A conversa foi longa, longa. Prolongou-se por horas e horas a fio. Rosa contou a ele tudo sobre Pasárgada. Naquela noite, o Poeta dormiu na casa de Rosa.

Com a chegada de um novo dia, o desejo de reencontrar seu velho amigo, o Rei, fez com ele se despedisse de Rosa, ela, porém interveio:

- Você andar até lá? Não, não, o Rei é muito ocupado, quem sabe você chegue lá e ele nem possa lhe falar; use o telefone automático, é só dizer “o Rei” e ele liga na hora.

- Aqui é assim? Lá, não, lá tínhamos de discar.

Assim o Poeta fez, foi ao Rei, Irene, às mulheres do Sabonete Araxá, Teodora e tantos outros dos seus

Quando chegou a Rei, este disse ao Poeta:

- Amigo, você não parece tão bem quanto eu imaginava que estivesse.

Bandeira deu um sorriso:

- Velho amigo, eu me sinto tão só.

- Pois então escolha uma cama e tua mulher.

2 Comentários

  1. Paula disse,

    Muito bom seu texto Jon, não imaginava que tinha tanto talento.. continue sempre investindo.. vc é muito bom.. conversaremos mais.. beijos

  2. turnes disse,

    Jon! Vc escreve com lirismo e certo olhar irônico sobre a vida e as personagens. Parabéns e abraços.

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