Diálogos

fevereiro 17, 2010 at 11:47 pm (Conto)

Raphael Lambach ©2010 Lambach’s writings

“É um absurdo dividir as pessoas em boas e más. As pessoas são agradáveis ou entediantes.”

Oscar Wilde

Em um belo quarto, repleto de plumas e veludos e uma cama gigantesca, com lençóis e fronhas lindamente bordadas em diversos tons de rosa, Oliver adormecia e parecia imergir em sonhos pacíficos. Ele estava sozinho, mas sua mão – macia e aveludada – toca o travesseiro ao seu lado, como se acarinhasse a mais doce pessoa, a mais bela criança ou o mais dócil idoso.

Oliver tivera um dia estafante, precisou correr a mil lugares para resolver os preparativos da Festa. Quase tudo estava pronto, faltava verificar os últimos detalhes – o que o mais lhe preocupava eram os quadros comemorativos que estavam com Antony para que fossem finalmente acabados.

Oliver levantou-se lentamente, abriu seu roupão e admirou-se. Seu corpo era para ele uma verdadeira obra de arte. A admiração de si mesmo ia desde os olhos castanhos, o cabelo negro-carvão até à pele morena recendente a bálsamo. Diariamente cumpria uma via-crúcis para produzir-se.

Após o ritual de auto-embelezamento, Oliver se dirigiu ao ateliê de Antony.

- Olá, Tony, querido! Você sabe que preciso desses quadros hoje, meu bem! Por isso, vamos rapaz, mãos à massa, digo, mãos às tintas.

Ao ouvir isso, Antony gargalhou e, com seus límpidos olhos azuis, cravou o olhar sobre Oliver enquanto respondia:

- Olie, Olie, menos pressa garoto. Parece criança. Vamos, sente e espere. Não posso apressar minha criatividade.

- Tony, você é tão disciplinado. Achei que fizesse tudo de maneira metódica.

- Disciplinado, sim. Metódico, bem, talvez. Mas não forço a inspiração. Não uso a pressão como forma de trabalho, meu garoto.

- Ah, Tony, como você é temperamental. Não precisa sentir-se ofendido. Foi só um comentário amigo. Vocês – artistas – são muito temperamentais. Credo.

Com o pincel em riste, Antony estava pronto para responder ao comentário, quando soou a campainha.

Antony logo colocou o pincel sob a paleta, limpou as mão em uma pano de linho branco, mas que já continha algumas máculas de vermelho, verde e azul. Abrindo a porta, um sorriso brotou sobre seus lábios e com um afetuoso abraço trouxe para dentro do elegante ateliê o velho amigo.

- Oliver, veja quem chegou.

Oliver levantou-se meio sem jeito, de má vontade e quando ergueu a cabeça, viu que tinha motivos para alegra-se. Oliver e Antony olhavam para o amigo. Oliver disse:

- Herculano, Herculano. Há quanto tempo não nos víamos? Há muito você não passa lá em casa. Não vai dizer que precisa ser convidado.

Herculano tinha um corpo esbelto e esguio, repleto de desenvoltura e volúpia. Sua pele era cor de café, seus olhos negros e seu cabelo, bem, havia pouco tempo tinha sido raspado. Herculano era filho de um mercador famoso na cidade. Estava inserido em todos os círculos sociais, em todas as festas. E era óbvio que, juntamente com Antony, fazia parte dos convidados de honra de Oliver.

- Ora, Olie. Não tenho tido tempo. Os afazeres poéticos têm tomado minha liberdade. Preciso sobreviver, não é? Então, dedico-me seriamente em compor meus versos. – E dirigindo-se para Antony disse: – Vocês viram meus versinhos no jornal matinal?

Os outros dois menearam a cabeça. Não tinha visto.

- Bem, de qualquer forma lá estão eles.

Antony sentia-se envergonhado por não ter aberto o jornal matinal e lido os poemas do velho amigo. Necessitava de redenção, resignar-se.

- Sabe Herculano, alguém me pediu alguns quadros pára ontem. Cá estou eu pintando, na verdade, finalizando. Não tive tempo nem de tomar café.

- Tony, não sabia que se ofendia tanto comigo! – disse Oliver, sarcasticamente.

- Bobo.

- Tony, estou te atrapalhando? Vim só dizer um olá, não imaginava que estava tão ocupado.

- Não tem problema, vocês são companhias perfeitas. Vocês sabem disso. Eu preciso sempre repetir isso? Vamos comer algo!

Os três se dirigiram à cozinha. Lá cada um aprontou seu lanche.

Herculano olhou para Oliver, e em seguida fez um breve sinal com o dedo indicador, para que Tony colocasse Oliver sob sua vista. Depois de feito isso, Antony e Herculano permaneceram em silêncio – que só seria quebrado por uma extravagante risada de Oliver.

- Okay, rapazes. Ou vocês falam algo ou eu mato você! – disse o menino festivo com um tom jocoso e com um sotaque característico de sua região.

O silêncio permaneceu.

O rapaz começou a irritar-se. Soltou um grito e agarrou a garrafa de Vodka.

- Então está bem. Vou beber essa garrafinha de água, aqui. Tony, não sabia que você tinha dessas coisinhas lindas em seu ateliê.

- Não, não tenho. Você esqueceu essa garrafa aqui, semana passa, lembra? Você anda nas nuvens, não é? Por quem esse coraçãozinho está batendo?

Antes que Oliver respondesse, Herculano aproximou-se de Oliver e colocou sua mão direita sobre o peito do menino.

- É, Tony, está acelerado o coração do nosso amiguinho.

- Ah, Herck. Cale essa boca. Estou ansioso pela festa. – respondeu Oliver com uma doçura que não parecia corresponder à brutalidade da frase.

Os outros dois se riram. Antony acrescentou:

- Sim, sim. Está fall in love.

Uma música tocava de fundo.

“I was happy in the haze of a drunken hour

but heaven knows I’m miserable now

I was looking for a job, and then I found a job

… and heaven knows I’m miserable now”

Herculano estava entretido com a música. Tony divagava, olhando o belo lustre sob sua cabeça. Era um orgulho ter comprado aquele artefato em sua última viagem à Londres. O lustre era composto de muitíssimos cristais, todos em formas de gota, que produziam um efeito descomunal na simplória iluminação do local.

O lustre havia sido matéria de discórdia entre os amigos. Não por inveja, muito pelo contrário, pois formam uma verdadeira irmandade. Mas Herculano afirmava tal artefato era vitoriano, Tony dizia ser moderno e Oliver ignorava o assunto por não entender de lustres.

Mais uma vez foi Oliver quem estilhaçou o silêncio.

- What’s new, people? Vocês não fala, olham para mim e riem.

Antony olhou para Herculano como se pedisse aprovação, este consentiu.

- Bem, olhe para seus pés, Olie querido. Que pantufas são essas? E rosas ainda. – e então Tony gargalhou!

- Bem, você pinta quadros. Eu uso pantufas rosa de pelúcia. Essa é a minha arte. Eu sou uma obra de arte.

Herculano ria de canto, não queria demonstrar que o amigo era mesmo engraçado no que acabara de falar.

- Não, meu amigo. – disse Herck com uma seriedade inequívoca e pouco costumeira. – A Arte Maior não é a música, não está nos quadros e tampouco nas pessoas. A maior obra de arte é a vida. A minha, a sua e de Tony.

- Ai Jesus, sem filosofias. Herck, meu querido, estou só brincando para descontrair. Não precisa de filosofia.

- Não é filosofia, meu caro Olie. É a vida como ela é. E analisando melhor, se a sua vida é uma obra de arte, você é uma obra de arte.


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