O Banho

fevereiro 19, 2010 at 11:36 pm (Conto)

Raphael Lambach © Lambach’s writings

O rapaz caminhava até o banheiro, em suas mãos havia um objeto que poderia parecer estranho à sua natureza. Mesmo assim ele caminhava e não sentia restrição de si mesmo, tampouco timidez. Todos estavam no andar de baixo, não podiam olhar par ao jovem. Seus olhos rejubilavam-se, via-se claramente o prazer do ato, o fulgor na íris ao mirar o objeto.

O andar era compassado, contemplativo. Havia na parede um quadro que sempre chamara a atenção do garoto: a tela exibia um menino tristonho que, montado sobre um lustre com detalhes florais roxos e de flores brancas, parece encontrar em seu próprio peito a dor que o mundo há de carregar até o final dos tempos. O quadro era belo, não era o único. Mais à frente, próximo ao hall, um quadro em o menino lê, debruçado, encantado e maravilhado com as letras sempre fora desprezado pelo banhista – que acumulava em seu quarto uma gigantesca pilha de livros roubados, nunca lidos.

Esse universo belo era também atormentado. Sua família nunca mostrara disposta a aceitá-lo. Nunca o viram como o que realmente era. Isso o deixava triste, fazia com que ele nutrisse esperanças soturnas em outros cantos da cidade, nos bares e afins. A beleza vinha de toda a fantasia que ele criava para rodear-se, para escapar da crueldade que despejavam – sem pudor- sobre seu corpo. Ele sentia-se impotente, caído e profundamente perdido.

As lágrimas que, por vezes, caíam de seu rosto transformavam em gotas de sangue frente aqueles que odiava. Não haveria perdão. Mas agora não era hora de pensar nisso, chegara o momento do banho. Lá ele relaxaria, assim como em uma sauna, um ambiente só dele, onde ele é o rei e governa soberano.

O jovem entrara no banheiro. Deixou sobre pia sua carteira, as chaves do carro e seus óculos escuros. Após tirar sistemática e meticulosamente a roupa toda e passou a admirar frente ao espelho. Fazia movimentos circulares em seus pêlos, alisando-os e endeusando a si mesmo. Os olhos pareciam vidrados, apaixonados. Era como se Narciso houvesse renascido ali, sob o julgo e a forma daquele rapaz. Um alienígena habitava aquele corpo, ele não se sentia parte daquele universo doloroso e conspirativo. Alguma saudade de sua verdadeira casa brotava em seu coração.

Entrara no banho. A paranóia de que era uma mulher alimentava seu espírito e dizia – a si mesmo – ser o fruto de uma aventura entre sua mãe e um cantor de rock. Aquilo lhe aviltava, não podia imaginar ser renegado pelo pai famoso, e prometia a si mesmo encontra-lo e fazer com que este o reconheça.

Milhares de imagens vêm à sua cabeça, sente-se então desordenado e diz para si mesmo “I’m not here and I’m not living this”. Estava imerso na banheira, para ressurgir outra vez. Olhos vermelhos e fatigados.

Ele começa a chacoalhar o objeto. Era como se a boneca tivesse culpa de algo.

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